Dos arquivos de papéis: Leo Tolstoy e Mary Baker Eddy
Retrato de Mary Baker Eddy, tirado por Calvin Frye, c.1892–1908, P00060 © TFCCS. Foto de Leo N. Tolstoy em Iasnaia Poliana, tirada por S. M. Prokoudine-Gorsky. Cortesia da Biblioteca do Congresso, Divisão de Impressos e Fotografias, LC-DIG-ds-02147. Sergei Tolstoy para Mary Baker Eddy, março de 1901, 718AP1.87.018.
Embora vivessem em lados opostos do mundo, tanto Tolstoy como a Sra. Eddy passaram por profunda transformação espiritual em idade madura, a qual perdurou pelo resto da vida. Ao falar sobre seus próprios momentos de despertar, a Sra. Eddy afirmou, em sua obra autobiográfica Retrospecção e Introspecção: “…em fins de 1866 cheguei à certeza científica de que toda causalidade é a Mente, e de que todo efeito é um fenômeno mental”.2
Mary Baker Eddy em seu escritório, c. 1892–1908. Calvin A. Frye. P00036.
A Sra. Eddy tinha 44 anos quando descobriu a Ciência Cristã, como resultado de uma cura que teve ao ler a Bíblia (inclusive Mateus 9:2), depois de uma queda no gelo que a deixara inconsciente. Tolstoy notoriamente abraçou o Cristianismo quando tinha cerca de 50 anos. Ele declarou, em sua obra de 1884, intitulada No que eu acredito, que vivenciou a cura espiritual ao refletir sobre o Evangelho de Mateus:
De todos os evangelhos, o Sermão do Monte foi a porção que mais me impressionou, e o estudei com mais frequência do que qualquer outra parte. Em nenhum outro lugar Cristo fala com tanta solenidade; em nenhuma outra parte Ele nos dá tantos preceitos morais claros e compreensíveis, que se aplicam a todos. Se há algum preceito claro e definitivo no Cristianismo, certamente foi expresso nesse sermão; e, por isso, foi nesses três capítulos do Evangelho de São Mateus que busquei a resposta para minhas dúvidas.3
Tolstoy em seu escritório em Iasnaya Poliana, maio de 1908. Cortesia da Biblioteca do Congresso, Impressos & Divisão de Fotografias, Coleção Prokudin-Gorskii, LC-DIG-prok-01970.
Tanto Tolstoy como a Sra. Eddy acreditavam nos ensinamentos de Jesus e no amor como princípio orientador, e dedicaram o resto da vida a um trabalho que refletia essa convicção. Ambos vieram a falecer com um intervalo de menos de duas semanas, no final de 1910. A edição de 17 de dezembro de 1910 do Christian Science Sentinel reuniu excertos de outras publicações com reportagens sobre o falecimento da Sra. Eddy, inclusive o jornal New York American, que fez esta comparação:
Tão ampla é a fama de Mary Baker Eddy que não há país no mundo que não tomará conhecimento de sua morte. A influência extraordinária que exerceu em sua geração evocará, em toda parte, comparações ou contrastes entre sua obra e a do visionário que faleceu na Rússia há alguns dias. O Conde Tolstoy falava ao intelecto, enquanto a Sra. Eddy tocava o coração. Ninguém tem o direito de duvidar da sinceridade de nenhum dos dois; embora cada pessoa pensará e sentirá como lhe convier ou como puder — no que concerne a sabedoria e a inspiração deles.4
Uma consulta às coleções da Biblioteca revela o nítido interesse da Sra. Eddy pela vida e obras de Tolstoy. Sua biblioteca pessoal continha exemplares de A Sonata a Kreutzer (1889) e Work While Ye Have the Light [Trabalhai enquanto tendes a luz] (1890) — e em ambos ela fez anotações a lápis.5 A Coleção Mary Baker Eddy contém álbuns de recortes com vários artigos sobre Tolstoy, inclusive a cópia de uma entrevista com ele, publicada na edição de 24 de fevereiro de 1901 do jornal New York World, na qual várias das afirmações dele foram assinaladas.6
Foto da página de um álbum de recortes contendo o início de uma entrevista com Tolstoy. Há parênteses colocados antes e depois desta citação: “A doença e o sofrimento destroem o que é mortal no homem, somente para prepará-lo para algo melhor”. SB012, 152.
A Biblioteca também reúne uma troca de correspondência correlacionada. Em meados do ano 1900, quando estava vivendo em Concord, New Hampshire, a Sra. Eddy soube que Tolstoy estava doente. Ela escreveu à sua aluna Anna B. White Baker, pedindo-lhe que enviasse a ele dois exemplares do livro de sua autoria, Ciência e Saúde com a Chave das Escrituras:
Por favor, ajuda-me a enviar meu livro, Ciência e Saúde, para o querido mártir deste século, o Conde Tolstoy. Quero que ele tenha o bordão de Deus para se apoiar. Sempre que o inimigo pressiona com força, eu “sorrio” com o venerável Conde. Dizem-me que ele está doente. Tenho de fazer meu livro chegar até ele[.]7
Ana Baker enviou esta mensagem, no dia 19 de março de 1901, junto com Ciência e Saúde, para Iasnaya Poliana, a propriedade da família Tolstoy:
A Rev. Mary Baker Eddy me incumbiu de lhe enviar o livro dela, “Ciência & Saúde com a Chave da Escritura” … que estabeleceu, aqui neste país e no exterior, uma religião prática que vê a necessidade da Ciência da Verdade que Jesus de Nazaré veio ensinar e pregar; e que na atualidade realiza uma grandiosa e nobre obra.8
É provável que Tolstoy tenha sido uma das primeiras pessoas na Rússia a ter lido Ciência e Saúde. No decorrer daquele mês, seu filho mais velho, Sergei Tolstoy, enviou à Sra. Eddy, em nome de seu pai, uma carta de reconhecimento e gratidão.9 Dois meses depois, no dia 2 de maio de 1901, a Sra. Eddy também enviou a Tolstoy uma cópia de seu livro Escritos Diversos 1883–1896. Em uma carta que acompanhava o pacote, ela indicou onde, naquele livro, Tolstoy poderia encontrar um testemunho que explicava como alguém se interessara por Ciência e Saúde.10 Talvez, ao optar por indicar esse depoimento específico, ela estivesse indicando o que acreditava que poderia, em especial, despertar interesse em Tolstoy; ele havia mencionado, em outubro de 1897, que podemos “compreender e sentir a Deus quando entendemos claramente que é irreal tudo o que é material”.11 Em Ciência e Saúde, a Sra. Eddy escrevera isto, iniciando sua “declaração científica sobre o existir”:
“Não há vida, verdade, inteligência, nem substância na matéria. Tudo é a Mente infinita e sua manifestação infinita, porque Deus é Tudo-em-tudo.”12
Esse testemunho anônimo publicado em Escritos Diversos, o qual a Sra. Eddy recomendou em sua carta a Tolstoy, transmite ideias semelhantes:
…qualquer pessoa que colocar de lado suas noções preconcebidas, e lidar honestamente consigo mesmo e com a luz que possui, chegará a um conhecimento da verdade conforme foi exemplificada nos ensinamentos e na vida de Jesus Cristo; a saber, que a Mente, a Alma, ou como quiseres chamá-la, é o Ego real, a individualidade; e que a mente mortal, com seu corpo, é o irreal, que se desvanece e por fim retorna a seu nada inicial. … Para quem é capaz de aceitar a verdade de que toda a causalidade está na Mente, e portanto começa a não olhar para a matéria e a olhar para a Mente, o Espírito — em busca do que é real e eterno, e de tudo o que produz algo duradouro — as dúvidas e os pequenos contratempos da vida se dissolvem na luz de uma compreensão melhor, que foi refinada no crisol da misericórdia e do amor; e essas dúvidas e contratempos desaparecem no nada de onde vieram, pois nunca tiveram nenhuma existência de fato, sendo somente invenções da crença humana, que erra. Lê os ensinamentos do Cristo, sob o ponto de vista da Ciência Cristã, e eles não mais parecem vagos e místicos, mas se tornam luminosos e poderosos — e, permite-me dizer, inteligíveis.13
Aparentemente, Tolstoy e a Sra. Eddy se interessavam reciprocamente pelo trabalho um do outro. A biblioteca da propriedade da família Tolstoy contém cerca de 22.000 livros, entre eles várias das obras da Sra. Eddy, algumas contendo anotações feitas de próprio punho por Tolstoy. E William D. McCrackan, que mais tarde atuou como Presidente dA Primeira Igreja de Cristo, Cientista, escreveu ao New York World em 1901, afirmando que “…recebera uma comunicação assinada pela filha… [de Tolstoy] dizendo que seu pai jamais nutrira algo que não fosse respeito pela Ciência Cristã”.14
Muitas das fontes mencionadas aqui (correspondência, livros e páginas de álbuns de recortes contendo anotações) podem ser consultadas pessoalmente nA Biblioteca Mary Baker Eddy. Algumas também podem ser encontradas no site dos Arquivos de Papéis de Mary Baker Eddy. É só clicar nos links que constam deste artigo. Examinando esses itens, é possível obter valiosos vislumbres de como essas duas pessoas eminentes se viam mutuamente, suas crenças cristãs e a obra de sua vida.
Observação: As referências citadas em nossa série de artigos “Dos Arquivos de Papéis” refletem os documentos originais. Por essa razão, talvez incluam erros ortográficos e alterações feitas pelos autores. Nos casos em que uma marcação ou alteração não possa ser facilmente representada no texto citado, pode ser que uma omissão ou inserção seja feita tacitamente.
Esse artigo também pode ser lido neste site em alemão, espanhol, francês e inglês.
- Também conhecido como Conde Lev Nikolayevich Tolstoy.
- Mary Baker Eddy, Retrospecção e Introspecção (Boston: The Christian Science Board of Directors), 24.
- Leo Tolstoy, What I believe [No que eu acredito] (London: Elliot Stock, 1885), 7–8.
- “Excerpts from Editorial Comments” [Excertos dos comentários de um editorial], Christian Science Sentinel, 17 de dezembro de 1910.
- Consultar B00305 e B00306 nA Biblioteca Mary Baker Eddy para ver essas anotações.
- SB012, 152–153.
- Mary Baker Eddy para Anna B. White Baker, 1900, F00204, https://mbepapers.org/?load=F00204.
- Anna B. White Baker para Leo Tolstoy, 19 de março de 1901, V03595, https://mbepapers.org/?load=V03595.
- Sergei Tolstoy para Mary Baker Eddy, março de 1901, 718AP1.87.018, https://mbepapers.org/?load=718AP1.87.018.
- Mary Baker Eddy para Leo Tolstoy, 2 de maio de 1901, V03596, https://mbepapers.org/?load=V03596.
- Leo Tolstoy, The Journal of Leo Tolstoi (First Volume–1895–1899) / translated from the Russian by Rose Strunsky [Diários de Leo Tolstoi (Primeiro Volume–1895–1899) / traduzido do russo para o inglês por Rose Strunsky] (New York: Alfred A. Knopf, 1917), 152.
- Mary Baker Eddy, Ciência e Saúde com a Chave das Escrituras (Boston: The Christian Science Board of Directors), 468:9–11.
- Sra. Eddy, Escritos Diversos 1883–1896 (Boston: The Christian Science Board of Directors), 469–470.
- “Count Tolstoi and Christian Science” [O Conde Tolstoi e a Ciência Cristã], Sentinel, 8 de agosto de 1901.


