O livro O Jardim Secreto tem alguma relação com a Ciência Cristã?

7 fevereiro 2022

The Secret Garden book cover (Cropped)

Acaso Frances Hodgson Burnett era Cientista Cristã? Será que há alguma influência dos ensinamentos da Ciência Cristã na obra infantil O Jardim Secreto?

Avisamos os que não leram O Jardim Secreto que este artigo contém detalhes da narração!

The Secret Garden book cover

Capa do livro O jardim Secreto, aprox. 1911. Cortesia da Biblioteca do Congresso, Divisão de Livros Raros e Coleções Especiais.

Frances Eliza Hodgson nasceu em 24 de novembro de 1849, em Cheetham, Manchester, Inglaterra. Sua família emigrou para os Estados Unidos em 1865, e ela começou sua carreira de escritora aos 19 anos, escrevendo contos para revistas. Em 1873, casou-se com Swan Burnett, com quem teve dois filhos: Lionel e Vivian. Depois de passar dois anos em Paris, os Burnett voltaram para os Estados Unidos, estabelecendo-se em Washington, DC, onde ela começou sua bem-sucedida carreira de romancista, escrevendo obras para crianças e adultos. O primeiro de seus conhecidos livros infantis, O Pequeno Lorde, foi originalmente publicado em inglês em 1886.

No início dos anos 1880, Burnett se interessou pela Ciência Cristã, bem como pela cura por meio da mente (que deu origem ao movimento do Novo Pensamento), pelo espiritualismo e pela teosofia. Seu interesse por esses temas pode ter sido impelido por ela ter lutado com a depressão e a “prostração nervosa” durante toda sua vida.

De acordo com seu filho Vivian, durante esse período Burnett fez um curso de estudos metafísicos com uma ex-Cientista Cristã, Anna B. Newman.1 Em março de 1881, Newman havia estudado com Mary Baker Eddy, a Fundadora da Ciência Cristã, mas deixara o movimento da Ciência Cristã no final do mesmo ano. A correspondência entre a Sra. Eddy e vários Cientistas Cristãos, durante a década de 1880, indica que eles acreditavam que a prática e o ensino de Newman não estavam de acordo com a verdadeira Ciência Cristã. Apesar disso, Burnett aparentemente via a Ciência Cristã de maneira favorável, embora nunca tenha se filiado a nenhuma igreja ou organização da Ciência Cristã.

Em 1890, o filho de Burnett, Lionel, morreu de tuberculose, aos 16 anos. Ela morou na Inglaterra por um período durante aquela década e, em 1898, divorciou-se do marido. Casou-se com Stephen Townsend in 1900, mas o casamento também terminou em divórcio depois de dois anos. Sua última residência foi no condado de Nassau, Nova York. Ali ela morreu em 1924, tendo sido enterrada no cemitério de Roslyn, Greenvale, Nova York. Seu filho Vivian acabou se tornando Cientista Cristão e filiou-se À Igreja Mãe (A Primeira Igreja de Cristo, Cientista) em 1918. A seguir, ele se filiou a Primeira Igreja de Cristo, Cientista, Great Neck, Nova York. O artigo de Vivian, “Unity in Church Building” [União na construção da igreja], foi publicado em 12 de dezembro de 1931, no Christian Science Sentinel. No ano seguinte, seu poema “Oh! quando a graça vemos” foi publicado como hino na versão em inglês do Hinário da Ciência Cristã.

Frances H. Burnett publicou a versão original, em inglês, do livro O Jardim Secreto em 1911. Ao longo dos anos, alguns acreditaram que ela fosse Cientista Cristã e que seria possível encontrar ensinamentos da Ciência Cristã nesse romance. Mas o livro realmente não contém nenhum ensinamento que possa ser especificamente identificado com a Ciência Cristã ensinada por Mary Baker Eddy. Em vez disso, o leitor pode encontrar evidências claras da corrente do Novo Pensamento, da filosofia oriental (possivelmente filtrada pelas lentes da teosofia) e do espiritualismo.

A história de O Jardim Secreto tem como foco a jovem Mary Lennox, que passa sua infância na Índia como criança mimada e doente: “Mary era magricela, tinha rosto miúdo, cabelo desbotado, bem ralo, e uma expressão amargurada. O cabelo era amarelado, o rosto, também, porque ela nascera na Índia e sempre sofrera de uma ou outra doença. … aos seis anos de idade a menina era uma pestinha tirânica e egoísta como jamais se havia visto”.2 Depois da morte dos pais, Mary é enviada para viver com seu amargurado tio, Archibald Craven, em uma mansão de 600 anos chamada Misselthwaite Manor, que tinha cerca de 100 quartos e estava localizada à beira de uma charneca inglesa. A esposa de Craven havia morrido tragicamente dez anos antes, e ele ordenara que o jardim cercado de muros, o qual ela amava, fosse permanentemente fechado e a chave de seu portão, enterrada. Craven passa a maior parte do tempo viajando e raramente está em casa.

Mary Lennox chega a Misselthwaite Manor e encontra, em um de seus quartos, o filho de Craven, Colin, que também é um garoto mimado e doente. Archibald Craven e sua equipe de criados acreditam que Colin está debilitado, desenvolvendo uma corcunda, e que não viverá até a idade adulta. Ao longo da narrativa, Mary Lennox e Colin vão adquirindo uma excelente saúde por meio dos poderes de cura da natureza, repetindo e entoando palavras positivas e exercendo poderes mentais inexplicáveis que eles chamam de “Mágica”.

Os poderes de cura da natureza chegam até Mary e Colin por meio de um garoto local chamado Dickon, irmão de uma serviçal que cuida de Mary. Dickon passa os dias na charneca, é muito saudável e tem uma afinidade natural com plantas e animais. Mary e Colin fazem amizade com Dickon, que os incentiva a passar o tempo ao ar livre, apreciando a beleza e os aspectos saudáveis da natureza. Um lugar onde eles praticam essas atividades é o Jardim Secreto, depois de Mary encontrar a chave do portão que havia sido enterrada. À proporção que passam mais tempo ao ar livre, a saúde deles vai melhorando.

Passar o tempo ao ar livre não é a única coisa de que Colin precisa para melhorar sua saúde. Ele chega à conclusão de que os pensamentos negativos que ele tem sobre si mesmo precisam ser substituídos por pensamentos positivos. Consegue isso por meio da repetição de inúmeros pensamentos e frases positivas, nos quais ele declara que suas pernas são fortes, que ele é perfeitamente saudável e assim por diante. Mary recorda histórias que ouviu quando criança na Índia, sobre “faquires” (adeptos e iogues que dizem ter imensos poderes mentais para controlar o próprio corpo). Há sugestões de espiritualismo e reencarnação.

Realmente Colin declara que isso que está fazendo para melhorar sua saúde é algo “científico”. Mas em nenhum ponto de O Jardim Secreto encontramos algo que possa indicar ou sugerir a Ciência Cristã como sistema teológico e metafísico. Aliás, a Ciência Cristã nunca é mencionada no livro. Tampouco há qualquer referência a Jesus, ao Cristianismo ou à cura cristã tendo sua origem no poder e na luz de um Deus infinito, que dissipa a escuridão das falsas crenças que estão na raiz da fraqueza, da falta de saúde e de traços ruins de caráter. Também não há nenhuma referência a Jesus ser a personificação humana do Cristo eterno “que vem à carne para destruir o erro encarnado”3 ou ao Cristo que ainda hoje “vem à carne” em sua missão de salvação e cura.

É fato que os personagens em O Jardim Secreto reconhecem que o medo é um elemento que está prejudicando sua saúde e que deve ser superado. Esse é um dos ensinamentos da Ciência Cristã, mas também faz parte do Novo Pensamento. Em apenas um ponto, mais para o final da obra, depois que Dickon é persuadido a cantar a Doxologia, há a vaga sugestão de que a “Mágica” praticada pelos personagens poderia indicar a existência de um poder divino superior.

Perto do final do livro, Colin fala de uma perspectiva futura para si mesmo como “descobridor científico”. Isso ele faz em termos que sugerem os ensinamentos da cura pela mente ou Novo Pensamento, não da Ciência Cristã:

“As grandes descobertas científicas que farei”, diz ele, “estarão relacionadas com a Mágica. A Mágica é uma coisa grandiosa, e quase ninguém sabe nada sobre ela, exceto algumas poucas pessoas em livros antigos… E Mary sabe um pouco porque nasceu na Índia, onde há faquires. Acho que Dickon sabe um pouco de Mágica, mas talvez ele não saiba que saiba. Ele encanta animais e pessoas. Eu jamais teria permitido que ele me visitasse se não fosse um encantador de animais, o que também significa ser um encantador de garotos, pois garotos são animais. Estou certo de que há Mágica em tudo, que nós é que não temos a sensibilidade para tirar partido dela, e usá-la para que faça coisas por nós… Como eletricidade, cavalos e vapor”.4

Na edição de junho de 1885 do The Christian Science Journal, a Sra. Eddy articulou sua opinião sobre as diferenças entre a cura pela mente e a Ciência Cristã:

Se Deus não governa a ação do homem, essa ação é errada. Se Ele a governa, a ação é Ciência. Se a teologia da cura mental fosse eliminada, ficaria eliminada sua ciência, e restaria apenas uma “cura pela mente”, nada mais, nada menos — do que uma mente humana governando outra; e, nesse caso, estarás admitindo que existe mais de um Deus, se concordas que Deus é a Mente. Sem o verdadeiro senso da sanadora Teologia da Mente, não podes nem compreender nem demonstrar sua Ciência e, em nome da Verdade, porás em prática a tua crença sobre a Ciência.5

Apesar da popularidade de O Jardim Secreto, mesmo entre alguns Cientistas Cristãos, o ecletismo espiritual de Frances Hodgson Burnett faz eco aos ensinamentos do Novo Pensamento, da teosofia e do espiritualismo. Essa obra não contém nada da teologia ou metafísica específica da Ciência Cristã.


Esse blog também pode ser lido neste site em alemãoespanholfrancês e inglês.

Print Friendly, PDF & Email
  1. Vivian Burnett, The Romantick Lady: The Life Story of an Imagination [A romancista: A história de vida de uma imaginação] (New York: Scribners, 1927), 146.
  2. Frances Hodgson Burnett, O Jardim Secreto (Belo Horizonte: Autêntica, 2020), 1, 2.
  3. Mary Baker Eddy, Ciência e Saúde com a Chave das Escrituras (Boston: The Christian Science Board of Directors), 583.
  4. Burnett, O Jardim Secreto, 299.
  5. Mary Baker Eddy, “Questions and Answers” [Perguntas e Respostas], The Christian Science Journal, junho de 1885, 50. Ela está respondendo à pergunta: “A teologia da Ciência Cristã ajuda na cura?” (Ver também Escritos Diversos 1883–1896, 58, 59, de Mary Baker Eddy.)