Mulheres que fizeram história: Marcella Craft

3 agosto 2021

Marcella Craft
Retrato de Marcia Craft, por volta de 1895–1905. P00487.
Foto tirada pelo Estúdio Apeda de Nova York.

Uma voz melódica pode fazer mais do que apenas emitir belas notas. Ela também pode levar mensagens belas e inspiradas — principalmente as contidas nos hinos.

Como muitas igrejas cristãs, A Igreja Mãe teve por muitos anos um coro que participava dos cultos dominicais, apresentando-se e cantando os hinos com a congregação. Em 1898, essa prática mudou na igreja de Boston, cujos cultos passaram a ter os hinos cantados pela congregação e um hino selecionado cantado por um solista. Em poucos anos, isso se tornou o padrão também para as igrejas filiais da Ciência Cristã.1 Um desses primeiros solistas foi a soprano de ópera Marcella Craft (1874–1959).

Marcia Craft nasceu em Indianápolis, Indiana, Estados Unidos, e aos 13 anos mudou-se com a família para Riverside, Califórnia. Ali ela começou sua carreira de cantora como solista do coro da Igreja Batista de Riverside.2 Percebendo seu talento, a comunidade patrocinou seus estudos em Boston com Charles R. Adams (1834–1900), tenor e ator de ópera, de renome internacional.3 4 É provável que Craft tenha se interessado pela Ciência Cristã nessa época. Ela nunca se filiou À Igreja Mãe, mas atuou como solista de janeiro de 1898 a outubro de 1900.

Embora a maneira como ela conheceu a Ciência Cristã não tenha sido documentada, na época, sabemos que Craft era amiga e paciente da praticista da Ciência Cristã Laura E. Sargent, que fez parte da equipe de funcionários da Sra. Eddy por muitos anos.5 Seu talento e convicções são reconhecidos neste memorando da igreja, datado de 26 de outubro de 1898:

A Sra. Eddy diz que o Conde de Dunmore é compositor e ficou encantado com o canto da Srta. Craft. A Mãe foi informada de que a Srta. C. está profundamente interessada na C.C. e leva nosso livro-texto com ela, quando viaja.6

A Sra. Eddy reconhecia os talentos de Craft. Uma ocasião especial envolveu a apreciação que ela expressou, no início de 1900. O relato a seguir menciona algo ocorrido após uma apresentação de Craft em Concord, New Hampshire, onde a Sra. Eddy morava na época:

Ontem à noite recebi da senhora a mais linda cesta de flores que já ganhei e quero agradecer-lhe.7 8

Naquele outono, Craft pediu à sua “amada mãe” demissão do cargo de solista dA Igreja Mãe, a fim de mudar seu foco para se dedicar mais ao que considerava um dom que recebera de Deus:

Por muitos anos, desde que comecei a me dedicar ao estudo da música, tenho a esperança de algum dia me tornar uma grande cantora e uma boa mulher, cujo canto eleve o pensamento daqueles que precisam ouvir, fazendo com que também o sintam, mesmo que não consigam entender…Os cantores de hoje não podem alcançar posição e serem reconhecidos como cantores de primeira classe, sem estudar na Europa. Até agora, nunca tive oportunidade para isso.

A carta continua, expressando sua gratidão pelA Igreja Mãe:

Mas os anos passados no aperfeiçoamento técnico não foram perdidos, e os últimos dois anos e meio, passados cantando nA Igreja Mãe, deram-me a maior das ajudas no momento em que mais precisei, preparando-me para um trabalho melhor e mais amplo. Não tenho palavras para expressar o quanto a Ciência Cristã significou para mim, e como ela me ajudou a amar com mais compreensão no espírito.9

Ela se mudou para Milão, Itália, onde estudou com Francesco Mottino e Enzo Guagni. Posteriormente, viria a ser uma dos três solistas substitutos dA Igreja Mãe, entre 1905 e 1915.10 E manteve sua ligação com a Sra. Eddy após deixar de ser a solista titular.

Em 1900, ofereceu-se para cantar para a Sra. Eddy, que inicialmente declinou a oferta, escrevendo que havia perdido seu “amor pela música material”.11 Craft respondeu que só queria cantar se a Sra. Eddy tivesse o “desejo de ouvir a música do hino A Oração Vespertina da Mãe ou do Hino de Comunhão, não para mostrar o pequeno grau de habilidade” que ela tinha.12 (Ela estava se referindo nesta carta a dois dos poemas da Sra. Eddy musicados.)

Na verdade, Craft cantou uma peça do oratório de Felix Mendelssohn Elias para a Sra. Eddy, em 1909 — um privilégio concedido a poucos. William Rathvon, que era um dos secretários da Sra. Eddy, lembrou esse fato:

[Marcella] foi apresentada e logo estava imersa em “Ouve, Israel”, com a Sra. [Ella] Hoag no acompanhamento. Na sala, por ser pequena, apenas [Adam H. Dickey] e [Calvin Frye] entraram, enquanto [Irving C. Tomlinson], [Laura Sargent] e eu ficamos parados, ouvindo da porta aberta. Ao longo do corredor e nas escadas estavam agrupados os demais. Depois de uma nota alta e sustentada, nossa Líder aplaudiu. Posso ver a figura ereta levantando as mãos em um aplauso vigoroso. Em seguida, ela cumprimentou a cantora, dizendo: “Você merece toda a fama que recebeu”. [Marcella] beijou-lhe a mão e ficou bastante emocionada…13

Pouco depois dessa apresentação, Craft voltou para a Europa, onde se tornou uma cantora de ópera famosa e realizada, na Alemanha.14 15 Lá ela cantou nos teatros de ópera de Elberfeld e Kiel, bem como em Munique, onde acabou se estabelecendo.16 Os críticos davam-lhe ótimas resenhas, especialmente por suas atuações como Salomé, na ópera de Richard Strauss Salome e Butterfly, na ópera de Giacomo Puccini, Madame Butterfly.

Durante esses anos, Craft manteve contato com a Sra. Eddy, enviando cartas que ela gostava de receber. Em 1910, Rathvon escreveu isto para Craft:

Você gostará de saber, tenho certeza, como a Sra. Eddy ficou feliz, quando lhe entreguei sua carta esta tarde. À medida que [ela] lia, sua satisfação ficava claramente visível, e quando a devolveu para mim, havia um comentário escrito que poucas cartas, passando por suas mãos, já receberam.17

O início da Primeira Guerra Mundial forçou Craft a retornar aos Estados Unidos. E embora ela tenha continuado a se apresentar com grande aclamação da crítica, não atingiu o mesmo nível de fama que tivera na Europa. Por fim, retornou para a Alemanha.18 19 20 Na década de 1930, ela se aposentou em sua cidade adotiva, Riverside, Califórnia. Durante a aposentadoria, continuou ativa, fundando a Riverside Opera Company e ensinando sua arte. Faleceu aos 85 anos.21

Os talentos de Marcella Craft e sua apreciação pela Ciência Cristã ajudaram a comunicar as mensagens da Bíblia e de Ciência e Saúde à congregação nA Igreja Mãe. Embora sua paixão pelo canto a tenha levado a outras terras, ela nunca esqueceu sua fé, em busca de seu sonho no mundo da ópera.

 

Ouça Women of History from the Mary Baker Eddy Library Archives [Mulheres que fizeram história, dos arquivos da Biblioteca Mary Baker Eddy] (em inglês), um podcast de Seekers and Scholars [Pesquisadores e estudiosos] com os membros da equipe da Biblioteca: Steve Graham e Dorothy Rivera.


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  1. William B. Johnson para Mary Baker Eddy, 13 de setembro de 1898, IC001dP1.01.016.
  2. Hal Durian, “Marcella Craft: Talented and Crafty” [Marcella Craft, talentosa e habilidosa], True Stories of Riverside and the Inland Empire [Histórias reais de Riverside e Inland Empire] (United States: Arcadia Publishing Incorporated, 2013); Finding aid, Marcella Craft papers [Ferramenta de pesquisa, papéis de de Marcella Craft] (MS 071), Special Collections & University Archives, University of California, Riverside.
  3. Finding aid, Marcella Craft papers (MS 071).
  4. Granville L. Howe e William Smythe Babcock Mathews, “Charles R. Adams,” A Hundred Years of Music in America [Cem anos de música na América] (G. L. How, 1889), 218.
  5. William R. Rathvon, “Reminiscences of William Roedel Rathvon, C.S.B. Volume I” [Reminiscências de William Roedel Rathvon, CSB, Volume I], 28 de março de 1941, 211; Biblioteca Mary Baker Eddy, “Soloists of The Mother Church” [Solistas dA Igreja Mãe] atualizado em junho de 2005.
  6. Calvin A. Frye para Albert Metcalf, 26 de outubro de 1898, L06672.
  7. Marcella Craft para Mary Baker Eddy, 26 de janeiso de 1900, IC 424. 52.002.
  8. “Concert at Concord, N.H.” [Concerto em Concord, New Hampshire], Christian Science Sentinel, 1o de fevereiro de 1900.
  9. Marcella Craft para Mary Baker Eddy, 4 de setembro de 1900, IC424.52.004.
  10. Clifford P. Smith, “As I Recall It” [Como eu me lembro], 1952, Reminiscência, 42.
  11. Mary Baker Eddy para Marcella Craft, 25 de janeiro de 1900, L10810.
  12. Marcella Craft para Mary Baker Eddy, 25 de janeiro de 1900, IC424.52.001; Marcella Craft para Mary Baker Eddy, 26 de janeiro de 1900, IC 424. 52.002.
  13. William R. Rathvon, “Reminiscences of William Roedel Rathvon, C.S.B. Volume I”, 212–213.
  14. Finding aid, Marcella Craft papers (MS 071).
  15. Ednah Aiken, “Two California Songbirds in Europe” [Dois pássaros cantores californianos na Europa], Sunset, janeiro de 1914, 535.
  16. Durian, “Marcella Craft: Talented and Crafty”, 535.
  17. William R. Rathvon para Marcella Craft, 4 de janeiro de 1910, L13990.
  18. “Marcella Craft, Gifted Soprano, Los Angeles Artist” [Marcella Craft, soprano talentosa, artista de Los Angeles], Los Angeles Herald, 6 de novembro de 1914, 17.
  19. “Marcella Craft Again Delights Worcester” [Marcella Craft deleita mais uma vez Worcester], The Musical Leader, 25 de maio de 1922, 502.
  20. “Marcella Craft Triumphs in Three Cities” [Marcella raft triunfa em três cidades] (anúncio), The Musical Leader, 12 de janeiro de 1922, 34.
  21. Finding aid, Marcella Craft papers (MS 071).